O estranho caso da economia cuja taxa de desemprego está muito abaixo das estimativas de Nairu (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment) mas apresenta sinais inequívocos de um longo processo de desinflação.
Há poucas horas da primeira decisão do Copom de 2026, os dados do IBGE reforçam o cenário de desinflação, visto ao longo de todo o segundo semestre de 2025.
A variação de 0,20% ficou abaixo da mediana das projeções do mercado financeiro (+0,23%) e da variação registrada em dezembro de 2025 (+0,25%). O resultado mensal só não foi mais baixo que o registrado em janeiro de 2025 porque no ano passado os índices de preços foram influenciados pelo chamado bônus de Itaipu.
Portanto, se desconsiderarmos a variação de janeiro do ano passado, o aumento de 0,20% registrado este mês foi o menor para o período desde quando o IPCA-15 passou a ser divulgado, em 2000.
Neste contexto, a relação entre o nível de atividade e o mercado de trabalho com a dinâmica inflacionária deve ser analisada considerando as especificidades do caso brasileiro, no qual, apesar do avanço recente do emprego formal, cerca de 40% da força de trabalho segue auferindo renda no mercado informal.
Além disso, fatores conjunturais seguem exercendo influência relevante. A desaceleração relativa da economia chinesa, combinada à estagnação da atividade europeia e ao recrudescimento das tensões comerciais, resultou em um quadro de sobreoferta de bens manufaturados, que tem desempenhado papel central no processo de desinflação em escala global.
Os indicadores mais recentes de preços, tanto ao consumidor final quanto ao longo da cadeia produtiva e no atacado, reforçam a avaliação de que há espaço para o início (tardio) do ciclo de flexibilização monetária, sem que eventuais cortes da Selic representem um risco inflacionário para a economia.
Neste momento, o principal elemento na equação do Comitê de Política Monetária é a insistência na perseguição de uma meta de inflação irrealista, cujo pano de fundo é a interpretação, quase inequívoca de que a economia do país opera além das suas capacidades e o mercado de trabalho pode impor, à qualquer momento, a retomada de um processo inflacionário preocupante e disseminado.
A resposta do Banco Central para este cenário impõe um custo elevado à economia e transfere o ônus da política monetária, excessivamente contracionista até às próximas gerações.
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