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A sustentabilidade da indústria brasileira em xeque

A sustentabilidade da indústria brasileira em xeque

Por Franklin Lacerda, diretor de Estudos Econômicos

A produção industrial caiu 10,9% no mês de maio de 2018. Trata-se da maior queda desde dezembro de 2008, quando a produção industrial recuou 11,2%, por conta da crise financeira internacional. Queda similar só havia sido enxergada no início da década de 1990.

Como informado essa semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o recuo de 10,9% da indústria em abril teve predomínio de resultados negativos, alcançando as quatro grandes categorias econômicas.

Dentre os ramos da indústria observados pela Pesquisa Industrial Mensal, 24 dos 26 ramos registraram queda, com destaques para as influências negativas mais relevantes foram assinaladas por veículos automotores, reboques e carrocerias (-29,8%) e produtos alimentícios (-17,1%).

O recuo da indústria em maio é reflexo da paralisação dos caminhoneiros, evento que afetou o processo de produção de várias unidades produtivas no país. Desse modo, o patamar de produção industrial dentro da produção total da economia brasileira retornou a nível próximo ao de dezembro de 2003.

A indústria no tabuleiro econômico

O Brasil é um país com uma forte vocação agropecuária, contudo, não é o único. Outros países, tais como os Estados Unidos, possuem um grande complexo agropecuário, mas não param por aí. Não há a necessidade de grandes esforços analíticos para notar que as grandes potências econômicas possuem estruturas produtivas diversificadas.

O problema principal de depender do setor agropecuário para a formação da riqueza nacional é a determinação dos preços. Como tratam-se de produtos comuns, sem grande diferenciação (as chamadas commodities), os preços são inteiramente determinados pelo mercado internacional.

A indústria possui uma vantagem nesse quesito: os produtos possuem maior diferenciação e, portanto, menor concorrência – dependendo do setor. Nesse sentido, os preços são praticamente determinados pelas próprias empresas (respeitando, obviamente, a demanda) e a parcela da renda gerada mundialmente pelos diversos produtores é consequentemente maior.

A indústria brasileira nesse contexto

Um forte plano de industrialização foi implantado no país na década de 1950, o que gerou resultados significativos. A economia brasileira viveu um crescimento vigoroso decorrente desses investimentos a partir da década de 1970.

Não obstante, uma série de problemas também foram paralelamente criados. A partir da década de 1980, fortes problemas fiscais e um contexto internacional muito mais hostil mudou a trajetória do país. Os estímulos à indústria e ao desenvolvimento foram interrompidos.

Da década de 1990 em diante a preocupação central dos sucessivos governos foi em colocar ordem na casa. Ex-post, com todos os benefícios e cautela a análise exige, entendemos quais os nossos erros do passado.
Podemos resumir os erros em dois eixos. O primeiro é que nessa trajetória não demos a devida atenção à complexidade econômica, ou seja, a diversificação da estrutura produtiva – ainda que seja facilmente questionável ao bel prazer das interpretações.

O segundo – e mais importante – é que praticamente ignoramos o ecossistema de inovação. E hoje, amargamos uma economia que cresce somente a reboque da economia mundial. Focamos nos problemas macroeconômicos, tivemos um olhar microeconômico muito localizado e ignoramos totalmente as variáveis mesoeconômicas.

O motor da economia está em ponto morto

A indústria é um canal importante para fomentar a diversificação e manter ativo o motor da economia: a inovação. Uma economia que não inova, não consegue lograr crescimento econômico sustentável.

Podemos apontar facilmente quatro “clusters” de inovação expressivos no Brasil. O primeiro está concentrado no próprio setor agropecuário, mas que internacionalmente sofre com uma forte concorrência.

O segundo gira em torno da Embraer e a cadeia aeronáutica. É importante observar que esse setor tem sofrido com grandes investidas da concorrência internacional de outras grandes corporações, mas essa é a regra do jogo.

O terceiro é a cadeia automotiva, mas os departamentos de pesquisa e desenvolvimento das firmas que compõem essa cadeia estão fora do país. Não nos esqueçamos: o Brasil não possui uma “indústria automotiva nacional”. As empresas do setor são todas estrangeiras.

O último e bastante expressivo é a cadeia de petróleo e gás, mas que também tem sofrido com problemas gravíssimos. Especialmente após os problemas que afetaram o desempenho da Petrobras. E não nos esqueçamos dos grandes investimentos em fontes de energia limpa e renovável.

Considerações finais: uma fábula econômica

A economia brasileira, especialmente a indústria brasileira, está em xeque há tempos. Tivemos um breve interregno no início dos anos 2000, no qual registramos um crescimento vigoroso e excelentes resultados econômicos. Contudo, esse movimento foi puxado pela demanda da China por produtos agrícolas. A indústria brasileira nunca mais foi a mesma após a década de 1980. E os impactos disso são vistos a cada nova crise.

O Brasil atual sofre com uma série de problemas de caráter fiscal e institucional. Coerentemente, estamos preocupados em sanar tais problemas. Mas com a estrutura produtiva sendo deixada em segundo plano, o cenário mais provável é que repetiremos os mesmos erros do passado.

O diagnóstico não poderia ser outro: há uma nova crise sendo fomentada no seio da economia mundial que, ao que tudo indica, explodirá até 2021. E o país está fragilizado com seus próprios problemas. Com a estrutura produtiva aos frangalhos, a indústria brasileira em queda, parece-nos evidente que a pancada será bem na boca do estômago.

E o crescimento econômico sustentável cada vez mais segue como um conto de fadas.

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