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Revisitando memórias passadas, a saga de Jeromin

Um bom parâmetro para mensurar a qualidade de uma história é a construção do ambiente e das personagens. E em Jeromin – Memórias de um Capataz, o professor Paulo Sandroni (veja mais aqui) [1] obteve nota máxima nesse quesito. O romance de estreia de Sandroni nos embala em uma viagem a região de Terra Adentro, município de São Luiz do Inhomirim, onde ficava a fazenda do Dr. Militão.

A fazenda ficava aos cuidados do capataz Jeromin, que levava uma vida extremamente tranquila e, apesar de ser o braço direito do respeitado Dr. Militão, consegue tocar os afazeres diário sem prejudicar as suas solitárias pescarias, o sossego do seu “pito” noturno e até mesmo suas observações do céu, animais e plantas.

O capataz, de retidão inabalável e fidelidade extrema ao seu patrão, viu sua rotina mudar a partir de uma tempestade que matou diversos animais. A intempérie da natureza tirou o sono de noites tranquilas, suspendeu suas pescarias e colocou em xeque diversas ideias que há tempos haviam se consolidado em seu âmago.

Desse momento em diante, Jeromin começou a notar diversas coisas estranhas acontecendo ao seu redor, especialmente com relação ao comportamento dos parceiros da fazenda. E neste aspecto, Sandroni foi brilhante, pois a maneira como as peças foram apresentadas e conectadas ao longo da história vai gerando um anseio de chegar logo ao final para ver o resultado desse quebra-cabeça.

Apesar de cuidar do dia a dia da fazenda, as decisões importantes sempre ficavam ao cargo do Dr. Militão. Com a reviravolta ocorrida depois da tempestade, Jeromin teve que tomar a frente em diversas situações. Dr Militão estava muito ausente, por conta de problemas pessoais, do envelhecimento e da saúde.

Seu filho, Seu Zeca, um homem que até então apresentava pouco ou nenhum interesse em tocar o negócio nas terras do pai, começou a aparecer mais na fazenda. Mas ainda assim, muita coisa ficava sob a responsabilidade de Jeromin.

Por vezes, as visitas de Seu Zeca à fazenda eram meramente pretexto para encontrar sua amante, que morava nas proximidades da região. Mas como a tempestade mudara a vida de todos envolvidos, direta ou indiretamente, e a saúde do Dr. Militão apresentava claros sinais de piora, a responsabilidade foi aumentando para Seu Zeca, que agora via a necessidade de tomar decisões pelo pai.

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Jeromin – Memórias de um Capataz. Capa: reprodução.

Nessa altura da história, a construção dos personagens mostrou ser um tanto cliché e estereotipada. O dono onipotente da fazenda (até o momento que sua saúde falha), retrógrado e autoritário. O filho que não tem apreço pelo dia a dia da roça e que, por sinal, passa mais tempo na capital do que na fazenda. O capataz fiel ao patrão. Mas Sandroni não deixa de nos surpreender. A história toma rumos inesperados. Difícil, inclusive, dizer se estamos lendo um relato verídico ou obra ficcional.

As terras do Dr. Militão passaram a ser alvo de disputas externas e internas entre parceiros. Na verdade, suas terras se tornam objeto de um grande esquema de corrupção, de uma intensa ambição por poder e riqueza, que envolvia figurões, como o coronel Bezerra (homem sozinho e autoritário, chefe de um bando de mercenários), advogados como Ramiro, braço direito do coronel Bezerra, e tabeliães. Além da cooptação dos parceiros da fazenda, pobres trabalhadores rurais dispostos a tudo para sobreviver.

Jeromin, no meio de toda essa confusão, deixou sua vida pacata, recheada de serviço e de relativa qualidade de vida, para filtrar os problemas internos e ser uma espécie de detetive particular do Dr. Militão e do Seu Zeca. Somente no último instante, já temendo pelo pior, decidiu compartilhar suas percepções com Seu Zeca, na esperança que o filho do patrão soubesse o que fazer.

O restante da história é um verdadeiro thriller, envolvendo investigações secretas do exército, mercenários sedentos por sangue, conflitos familiares e paixões ardentes. A história de Sandroni, vale ressaltar, prende a atenção do leitor e surpreende por sua dinâmica, pelas belas imagens construídas dos cenários que descreve, pela personalidade dos personagens e pelo suspense envolvido.

E, para fechar, não poderíamos deixar de destacar que Sandroni, respeitando suas origens acadêmicas, nos abrilhanta com diversas “pinceladas econômicas” ao longo do texto. Como quando destaca o avanço da produção de cana-de-açúcar por conta dos altos preços desta cultura. As relações de produção entre os parceiros e o dono da fazenda para plantarem alimentos. Os impactos das mudanças climáticas na produção e, por conseguinte, no nível geral de preços.

Em suma, o avanço do capitalismo (e sua eterna promessa de modernidade) sobre o pré-capitalismo (e sua sempre retrógrada ação sobre a sociedade e o ambiente) é cirurgicamente apresentada por Sandroni de modo didático. A história, nesse sentido, atingi fins didáticos de modo exemplar. É uma verdadeira aula. Além de mostrar todo o conhecimento do campo e das relações de produção rurais do autor.

Enfim, a história é de altíssimo nível. Um romance com “gostinho de quero mais” e uma verdadeira aula de economia, fruto de toda a didática adquirida em sua longa carreira como professor da FGV e da PUC de São Paulo. É um livro que foi lido e relido diversas vezes por nossa equipe e que recomendamos fortemente a leitura.

Jeromin – Memórias de um capataz (Editora Biblos)
Romance de Paulo Sandroni
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Notas

[1] Paulo Henrique Sandroni (São Paulo, 1939), é economista brasileiro graduado pela FEA-USP em 1964 e mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é professor da Escola de Economia e da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. É fellow do Lincoln Institute of Land Policythink tank de Cambridge (Massachussets). Seu renomado Dicionário de Economia venceu o Prêmio Jabuti em 1995 e 2000. Jeromin – Memórias de um Capataz é seu livro de estreia na ficção.

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